08 julho, 2016

A pulsação da noite


Vejo com serena visão a noite quase caindo. Ainda há vestígios de sol neste mundo de trevas iminentes. Aliás, o mundo insiste: acende luzes quentes e estáticas que atraem as mariposas, os besouros sem terra, os homens sem cobertor. O céu resguardando nas nuvens que se enegrecem momento após momento um segredo milenar e inadivinhável. Respiro, tenho certo medo do céu que se forma, da escuridão dominadora e sensual, das chamas quentes das estrelas. O que é que existe além de uma estrela? Outra estrela? — um outro céu tão escuro quanto o que vejo? Há então, será, um vácuo de nada que existe e no entanto ainda é nada? — eu amo o nada, e quanto mais o vivo mais sinto a perplexidade do seu existir. Sinto o meu corpo estremecer sutilmente ao passo das batidas do meu coração: é o fio que sustenta a minha concentração. E sinto-me, e sinto-me ofuscado pela estrela do mundo. Eu vim do céu. Amo o nada que está diante de mim e me acendo no brilho que ninguém vê porque essa noite é só minha. 
Agora a noite caiu. E há o sereno. E há o caos.

Autor: Geraldo Gomes