22 julho, 2016

Afrodite em ascenção

De tudo brota no seio da amante: amores estelares, seculares desejos urgentes; flama de sete cores que a ardem em paixão. A loucura dos filhos em sua mais tediosa chateação. A inata luxúria dos homens. A compaixão pela criatura mais desamparada da criação. A amante com as mãos em concha apanha tensa as mais variadas dores e alegrias, e entrega-se a elas numa doação beata e diabólica.
No inverno seu corpo petrifica em nostalgia, no outono a mulher é madura, sábia de suas falhas; no verão é o calor do sol a crestar a pele dos apaixonados; na época das flores e abelhas, a mulher é a própria primavera. A cada dia do ano fazem-se festivais entre si – há sempre grande aleluia contida no encontro de mulheres, diferente dos homens, que abrem infinitos vãos entre suas peles; entre duas semelhantes as palavras não significam, não dizem: entre duas mulheres o mundo inteiro é mudo. O homem não entende a linguagem da mulher e a teme a ponto querê-la quieta, benquista sob sua sombra masculina, sabendo que do contrário a mulher conquistaria o mundo no mais glorioso e simples gesto.
No doce girar de sua cintura, a violência do delírio: ela está em todas as paisagens, todos os olhos a veem – a mulher, impávida, desloca as montanhas do homem, acumulando suspiros e silêncios e sonhos em cada janela aberta, em cada pétala da flor colocada num vaso, em cada passo atrevido um atrás do outro. A amante suspende a respiração do apaixonado e devolve-lhe a vida a seu bel-prazer, seja em gotas que se espraiam no escuro, seja em torrentes loucas de jorros. Por intuição a mulher sabe do seu poder e sua dança enfeitiça há eras os espaços do mundo: tudo vibra, tudo se intensifica ao seu toque, sua beleza sensibiliza as pedras como a água, dando contornos redondos, dando-lhes forma, volume, gosto. A mulher sangrando geme no silêncio mundano, mas grita dentro de si, grita a sua dor de libertação, o seu grito abafado. Ouve-me, nessas palavras que te digo estão contidas todas as batalhas da minha espécie, todas as dores suportadas em histeria, de quando à noite tive a graça de sentir vida sem sequer ser notada. Não, tu me notas, mas com olhos divergentes ao que a minha atmosfera te pede. Ela pede em silêncio quente: eu sou tua ao mesmo ponto em que és meu. Eu tenho em mim todos os sonhos, todas as vidas que foram vividas no desprezo e no controle do homem, na paralisia de sua existência. Existência que jamais se realiza – o homem vive em vazio constante. Ouve-me então a ecoar nas tuas grotas, deixa-me ser o silêncio que traz as respostas. Eu, assim como a ti, tenho vida, e estou mais próxima dela visto que sangro, visto que sinto em mim as dores que nenhum homem já sentiu, visto que amo sem mesura.
No fim do mundo estará a mulher segurando a espada da Justiça e aos seus pés estará um mundo de homens curvados em dedicada rendição – nua, plena, lúcida estará a mulher em dores jubilosas no ar, na mão livre uma rosa sangra ao chão, de onde outras rosas brotam, espinhosas em sua beleza; na mão armada com a espada não há nada senão compaixão pela fraqueza dos homens, pelo seu desespero. Uma viagem inteira pela habitação da mulher não revelaria seu mistério. E eis que em adivinhação eu digo no mais titubeante tom de voz que o mistério da mulher é o de entregar-se, com ou sem cautela, aos amores, aos amores duros e brutos, aos amores extáticos de vivacidade, aos mais simples amores. À mulher, em silêncio, a vida líquida que pulsa e se movimenta e se eleva é amor, um tipo de revelação não anunciada em seu ritual de ser mulher; ama-se por instinto. Não há nada que decifre um gesto de uma mulher senão o olhar atento de um apaixonado. Mas ali ele já perdera-se completamente a si mesmo.


Autor: Geraldo Gomes