29 julho, 2016

Declarações

(I)
Falei que era para ficar. E como se tomado por uma força maior se foi. Foi-se porque é esse o destino das folhas desprendidas dos galhos, dos pés longe dos rastros, das ruas que abrem para o imenso deserto. Foi e levou consigo o vento que esquentava as minhas noites, foi e levou as minhas palavras na sua boca. Foi e eu vi um mar que suspendia em ondas nos seus olhos. Um mar suspenso na iminência de desabar. Pedi que ficasse, e de fato ficou. Aqui, ali, acolá. Dentro das minhas gavetas, no abrir da porta do quarto, no escuro da minha sombra, nos meus sonos tranquilos. Ficou como quem já sabe que se foi, ficou para não ter de dizer adeus. Mas seu silêncio disse, seu silêncio disse.
(II)
Eu vou ter de arrumar para mim alguma ocupação, alguma atividade libertadora e viva. Uma atividade que me roube totalmente de mim, e sem culpa me absorva. Já pressinto o cansaço, já sei do engano e da realidade da fuga. Mas preciso de algo definitivo que me tire de mim. Que me arranque dessa prisão de ossos, dessas paredes de carne. À noite com carinho eu me lembro de você, e sorrio. Bobo, sorrio. Como quem sente perto o amor, sorrio. E não quero entender como o amor se dá, para onde vai, quais os seus mistérios. Não quero as minúcias do amor. O amor, em si, basta. E ao pensar em ti, em silêncio, o meu amor me basta. E lá se vai novamente a minha vida.
(III)
Maio está quase no fim, meu amor. Maio está indo embora deixando para trás a anunciação de inverno. Este inverno seco que desafia o sol, cruel com as folhas que ainda não se prepararam para cair. Eu tive para mim os sonhos mais puros, mais simples, mais honestos. Eu tive para nós uma vida inteira de amor. Este inverno me sopra a espinha até que o meu peito esfrie, e sem preparo caia. Estou tendo o dia mais melancólico de maio, meu amor. Ainda bem que ele está quase no fim.
Mas o inverno ainda vem...
(IV)
E se amanhã você acordar de coração tranquilo e uma vontade perto do peito de se encontrar, vá embora. Vá embora e não olhe para trás, para não sentir culpa. Para não ter de enfrentar a terrível sombra do passado que parece te perseguir a cada passo adiante. Olhe para frente, para onde os teus olhos habitam, para onde a tua vontade quer e para onde o teu sossego busca. Eu não vou te prender, eu te deixo ir. Eu te amo o suficiente para te deixar ir embora. E vou sentir a tua falta por cada dia que se segue arrastado um perante o outro, mas nenhuma vez vou chorar. Lastimarei a tua ausência, mas te amarei pacientemente até o fim.
(V)

Volta.
Autor: Geraldo Gomes