05 julho, 2016

Desaprendendo a viver



Há 90 anos atrás a vida ensinou-me a caminhar. Hoje, na sua incrível ironia tira-me aos poucos a capacidade de falar.
E assim,  vou eu desaprendendo a viver.  Menos a amar. No meu coração ela não mexe. 
Hoje conto 90. Mas tente olhar para mim,  como se tivesse 20 ou talvez 70. 
Com 70 ainda me chamavam moça( mera simpatia dos meus velhos amigos). 
O meu espírito não envelhece. Isso eu preservei com o tempo. Aí a vida também não mexe. Sou eu quem decido. Se me faço velha; Ou nova. Ou os dois simultaneamente.

Mas já desaprendi muita coisa. 
Hoje cada passo para mim dura uma música inteira,
e sem melodia.
Ainda me lembro quando corria de prédio em prédio cheia de energia.
Hoje luto para dar um passo e me manter em pé numa única hora do dia.
Termina sempre no fracasso, sou sempre a derrotada. Acabo por ficar o resto do dia no sofá sentada, quase que imóvel e estática a ver mais um dia dizer adeus.

Eu era uma criança, uma jovem, uma mulher cheia de força. 
Era e contínuo a ser; um olhar de jovem, corpo de  mulher e jeito de menina.
Tenho apenas as marcas do tempo carregadas no meu corpo. Eu continuo a ser tudo isso só que de forma mais intensa e numa outra versão. Sou jovem por vontade própria. A alma não envelhece. Então olhe para mim, como se eu tivesse 20 ou talvez 70, pois aí ainda me chamavam de moça.

A vida é um prato que se serve  com ironia. Ou comes e te deixas viver segundo à sua ironia... Ou morres à sede. Sede de viver. Sim... Sede. Eu disse que a vida era irónica. Apesar de rejeitares um prato, é de sede que morres e morres na praia...aflita e afónica.                         
É como se no início do jogo te desse todos os poderes e quando descoberto o seu segredo... Ela te fosse tirando cada poder que te dera, aos poucos. Até não sobrar mais nenhum e dizer-te: "game over."
Por isso, aproveite todos os trunfos que tens, joga com todos os teus AS , e perceba o sentido do jogo( vida).

Autora: Vanessa Neto