07 julho, 2016

Explorando as possibilidades dos contos


Há dias estava a ler um livro de teoria da literatura chamado “O que é Conto” da autora Luzia de Maria (altamente recomendável) que me abriu inúmeras possibilidades na hora de escrever contos e sugeriu-me obras com sacadas geniais que pretendo partilhar com os leitores agridoces no decorrer do artigo.
Detalhe: que esse artigo seja um aperitivo e não o fim em si mesmo. A intenção é levar os leitores a explorarem a referida obra.

O artigo discorre sobre a problemática conceitual do conto. Desde a perspectiva clássica que consistia, mais ou menos, em definir o conto como sendo uma narrativa menor que a novela onde os eventos acontecem de forma sequencial (introdução, cume e desfecho); até a perspectiva mais moderna que não obedece uma estrutura fixa e, por isso, consegue formas subtis de contar uma história.
O livro pouco retrata da forma clássica. Mas eu, que venho reconhecendo como cada vez apreciador dos contos, reconheci na leve descrição do livro sobre a visão clássica o Machado de Assis em seu conto O Alienista (outra recomendação), por exemplo.
No entanto, há controvérsias se O Alienista vem a ser um conto ou novela. Sem entrar no mérito da questão e como o propósito do artigo é diferente, vou me centrar mais na produção moderna.
Alguns artistas vão ilustrar como é a visão moderna e instigar outras possibilidades de contar

Autor: Artur Oscar Lopes
Obra: Notí­cias

Notícias
Correio do Povo                         27/09/73
Informações
Maria Joana Knijnick, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deve ser pessoa sensível, que goste de ouvir música, seja alegre, que goste de passear domingo de manhã, que goste de pescar, que goste de passear na relva úmida da manhã, que seja carinhoso, que sussurre aos meus ouvidos que me ama, que tenha bom humor, mas que também saiba chorar. Que saiba escutar o canto dos pássaros, que não se importe de dormir ao relento numa noite de lua, que saiba caminhar nas estrelas, que goste de tomar banho de chuva, que sonhe acordado e que goste muito do azul do céu. Prefere-se pessoa que saiba escutar os segredos de um riacho e que não ligue aos marulhos do mar; que goste de bife com arroz e feijão, mas que prefira peru com maçã, dá-se preferência a pessoas de pés quentes, que gostem de andar de barco, que gostem de amar e que não puxem as cobertas de noite. Não se exige que seja rico, de boa aparência, que entenda Kafka ou saiba consertar eletrodomésticos mas exige-se principalmente que goste de oferecer flores de vez em quando.
End.: - Rua da Esperança, 43

Correio do Povo                         02/10/73
Informações

Maria Joana Knijnick, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deverá ser pessoa sensível e que tenha o hábito de oferecer flores.
End.: - Rua da Esperança, 43

Correio do Povo                         10/10/73
Informações

Maria Joana Knijnick procura pessoa que a ame e goste de oferecer flores de vez em quando.
End.: Rua da Esperança, 43

Correio do Povo                         20/10/73
Informações
Maria Joana Knijnick pede que qualquer pessoa goste dela e suplica que lhe mande flores.

Correio do Povo                         14/11/73
Informações


 A família da sempre lembrada Maria Joana Knijnick comunica o trágico desaparecimento daquele ente querido e convida os amigos para o ato de sepultamento. Pede-se não enviar flores.”
Como podemos ver esse conto, eventos aparentemente soltos acabam por contar uma história, sem a necessidade de eventos cadenciais e nem de aprofundamento nas indicações de Maria Joana que é a personagem principal.
Em seguida outra indicação de um conto com estrutura singular
Bertolt Brecht, "0 Menino Inerme"
"O senhor K., falando do péssimo hábitode deixar passar em silêncio as
injustiças, contou esta pequena história. Um transeunte quis saber de um rapazinho
em lágrimas a razão de suas penas.
— Eu tinha nas mãos dois marcos para pagar uma entrada de cinema —
disse o menino —, quando chegou um garoto mais forte do que eu e me arrancou
um deles 26 das mãos.
E apontou um jovem, que ainda podia ser visto a uma certa distância.
— E você não pediu socorro? — perguntou o passante.
— Claro — respondeu o menino, soluçando ainda mais forte.
— E ninguém o ouviu? — indagou ainda o estranho, acariciando-o
amavelmente.
— Não... — soluçou o garoto.
— Quer dizer que você não tem capacidade vocal, que o habilite a gritar
com mais força? — interrogou o homem. — Nesse caso, passe já pra cá esse
outro marco!
Tomando-o, meteu-o no bolso e continuou tranqüilamente o seu caminho."

Um conto que narra as consequências de não sermos capazes ir a luta por justiça, sem recorrer uma transcrição literal de uma realidade que leve a essa compreensão.
Finalizamos incentivando todos contistas e buscarem por diversos contos de forma a ampliarem as possibilidades de escrita. É recomendável, também, a leitura de teoria literária.

Autor: Isis Hembe