15 julho, 2016

O homem que já se foi


Quando tudo não tiver mais importância, eu terei ido.
Quando as palavras falharem seus vastos e grandiosos significados, eu já estarei distante.
Quando não tiver mais vento que me balance, corda que me suspenda, dor, raiva que me destrua, eu manter-me-ei abstrato.
Quando o beliscão ou a bofetada, o beijo ou o abraço, todas as torturas e afetos passarem a não ser senão um gesto de algo que já fora conhecido, mas que agora não o é, eu estarei em silêncio.
Um dia vislumbrei O Dia Feliz, um dia eu havia caído no meu abismo, um dia eu havia amado mais a todas as coisas do que elas próprias, um dia eu fui santo e pecador, um dia eu estive entregue aos desejos do vento, do mar, da terra. Um dia eu velejei à costa das amarguras, esperando encontrar entre as negras pedras um pouco do tranquilo silêncio. Um dia eu parei de gritar, e na minha loucura tudo o que pude fazer foi calar-me, pois que a loucura dos outros os impediam de me ouvir. Um dia, um dia eu fui o herói derrotado. Um dia, e nunca mais.

Eu estou indo, olhe. Veja o homem adentrar a sua sombra e fazer morada nos escombros da sua selvageria. Seus olhos denunciarão o fervor que o seu corpo sequer desconfia. Seus olhos abrem para o magnífico Nada, para a total Liberdade, para a primeira e derradeira existência. Ali não há prisão, desconhece-se o significado de grades e censura, o mundo todo é uma chama que arde tranquilamente e aos poucos, sem fulminação, se consome. Eu estou indo, olhe para o homem que já se foi e aqui deixou seu esqueleto como souvenir, como lembrança de que esteve aqui, como lembrança de sua condenada humanidade. Olhe para o seu fantasma, sua deformidade translúcida quase-existindo, quase-sendo. Olhe para mim, encare a minha abstração como um gesto gratuito de felicidade. De felicidade egoísta (pode a felicidade não ser egoísta?), pois só eu é quem a sentirei até o momento da morte, e além, e além. Eu devo condená-los a todos uma vida inteira de repetição, busca, engano, culpa, efêmera alegria, alegria, fuga. Ou devo dizer-lhes apenas o meu segredo: o êxtase da vida está no longo suspiro, na simples ascendência do ser, no silêncio efervescente, nas vibrações de uma nota de música, no movimento sutil de uma lâmina de grama. Nisso, todo um universo. Nisso, toda uma paz. Nisso, todo o Esquecimento. Nisso, toda a liberdade.

Autor: Geraldo Gomes