20 julho, 2016

Que toda a amizade seja como a de criança



Sempre tive dificuldade para definir o que é um amigo. Quer dizer, não sempre; apenas desde o momento em que me considerei crescida. Tudo isso porque a amizade parecia algo mais espontâneo, transparente e não tão frágil quando estava no degrau dos 8 anos e na aventura da escola primária. 
Amigos eram aqueles que via todos os dias pela manhã, com quem dividia o meu lanche, com quem competia o nível de rapidez durante a ortografia e partilhava o pânico de chegar cedo na escola sem fazer a tarefa. ''Me deixa só copiar do teu caderno!?'' Amigo era aquele que dizia: ''Sim! Faz rápido p'ra não te apanharem.''
E quando ele também não tivesse feito a tarefa, pensávamos juntos na melhor desculpa para contar ao professor; uma delas foi semelhante a esta:

 ''Quando cheguei em casa fiquei doente, e depois fui a casa da minha tia.
Quando voltei já estava escuro e não tinha luz, a minha mãe não tinha dinheiro para comprar velas. Então fui dormir, e hoje de manhã quando acordei o cão tinha comido o meu caderno.'' 

Era mais ou menos assim... e o professor fingia acreditar ou mandava-nos ficar em fila para apanhar com o pedaço de tábua que delicadamente chamava de chocolate com pimenta.
Essas são memórias que tenho sobre amizade. Cada dia descobria-se um amigo e todos eles eram bons, ainda que fizessem batota durante o salva-ova ou escondessem o bidón para eu não bicar.
A amizade era para todos e não estava dividida em grupos. A pergunta ''queres ser meu amigo?'' não era encarada com desdém. Não havia amigos falsos e amigos verdadeiros: apenas amigos! O conceito de falsidade era como óleo para a água da amizade.
Quando comecei a tirar o pé do ensino primário e a sentir os ares do secundário, tudo mudou. As amizades já não eram fáceis e tornaram-se frágeis demais; passaram a existir ex-amigos e inimigos, passaram a existir excluídos e cada grupinho existia na sua própria ilha.
Desde esta altura, o conceito de amigo tornou-se extremamente confuso para a minha cabeça. Conservava apenas a minha melhor amiga, que fiz na quarta classe e todas as outras, por alguma razão, não duravam ou simplesmente não me faziam sentir segura. Sentimentos amorosos surgiram e amizades entre meninas e rapazes já não pareciam existir. Lembro-me de perder muitos amigos porque eles inventaram de se apaixonar por mim (o que não era/é viável). Já não conseguia olhar para as pessoas com aquela transparência de criança, então todo mundo que conhecia não conseguia sair da área de conhecido. De repente, é como se a amizade tivesse se tornado um prémio difícil de conquistar. Vezes há, em que chego a conclusão que conheço muita gente mas amigos tenho dois ou três. Confusão se criou ainda mais na minha cabeça porque há pessoas com quem falo quatro vezes por ano e considero amigos, e outras com quem falo todos os dias mas não considero.
Amigo...
É complicado definir o que é um amigo, principalmente numa sociedade em que todos precisamos uns dos outros porque o sistema não funciona para todos. Então, para muitos de nós, ter ''amigos'' é uma carta na manga.
Enfim... Sei que essa última frase não tem nada a ver com o texto mas ainda acho mais sincero o ''amiga'' da senhora zungueira que quer vender os seu negócio do que o de muita gente que anda por ai.
Que hoje, 20 de Julho, dia do amigo, seja uma data não só para felicitar e ser felicitado mas para reflectir sobre o real sentido da amizade e os caminhos que estamos a trilhar. Desejo-vos reflexão, amor e luz! Que toda a amizade seja como a de criança.
#RosaSoares