21 julho, 2016

Tu me traiste (resposta para "Eu te traí" de Oliveira Prazeres)

Tu me traiste (resposta para "Eu te traí" de Oliveira Prazeres)

"Mor hoje eu te traí. Não houve razão aparente para tal, aliás nunca houve mesmo motivo algum para um ato tão vergonhoso, confesso com tanta vergonha essa minha pouca vergonha" Foram essas as palavras que rasgaram meu peito e partiram meu coração. Quando li, confesso que não quis acreditar, meu cérebro não processava tal informação, então, com os olhos cheios de águas cristalinas brilhantes e salgadas e o coração com aquela esperança que se negava a morrer percorri novamente as linhas amarelas do diário cor de rosa (nessa hora parecia preto para mim) para ver se havia lido errado, mas não havia. Não sei exatamente quantas vezes percorri aquelas linhas esperando que as letras mudassem, acho que foram mais de sete vezes, queria poder voltar no tempo, não ter aberto o diário, ter ido a festa ou num futuro drasticamente distante "não ter te conhecido e te amado".

Lembro daquela noite. Aí se o Roberto tivesse aceitado trocar o turno comigo!!! Não pude ir a festa então enviei um buquê com lírios brancos (tuas flores preferidas) e pedi que te divertisses que em três dias estaria em casa e compensaria minha ausência. Na manhã seguinte liguei para ti e tu falavas soluçando perguntei o que era, mas tu simplesmente choravas e pediste para prometer que te amaria sempre e para sempre, é claro que eu prometi sem mesmo ser necessário porque eu amava-te com o coração a alma e a vida, naquela altura não entendi o porquê, mas agora...! Agora dói demais enxergar a verdade, é como se de repente tivessem arrancado do meu peito o coração e jogado numa vala suja qualquer e essa dor sufoca dentro do peito, tira o fôlego e corta-me a respiração.

Como havia prometido três dias depois daquela noite eu estava em casa e tudo que eu queria era correr para os teus braços quentes e sentir-te envolvendo-me por completo (isso fazia-me sentir em casa), mas para minha surpresa tu não me envolveste como sempre fazias, teu abraço estava mais frio que a água do oceano que me fez companhia nos últimos dias, sabia que alguma coisa havia acontecido, mas sempre que eu perguntasse tu dizias que não tinhas nada, eu amava-te e por isso acreditei em ti.

Durante várias noite ouvi-te chorar baixinho, soluçavas enquanto escrevias algo naquele maldito diário que afogava tuas lágrimas, queria consolar-te, mas sabia que não adiantaria pois não dirias o que tinhas, então eu ficava aí a fingir que dormia enquanto choravas, até que não aguentei e numa noite depois de adormeceres decidi ver o que tanto te afligia ao ponto de tirar teu sono e arrancar sempre lágrimas dos teus olhos cor de âmbar (sei que não se lê o diário de outra pessoa, mas foi a única maneira que achei para poder ajudar-te) e foi naquele momento, naquele pequeno instante em que meu mundo desabou, ainda tentei resistir mas foi em vão, o tiro veio de onde eu menos esperava e acertou onde mais dói, tu juraste que serias minha e de mais ninguém para a vida inteira e além dela, uma vez disseste que amar alguém é entregar o comando da nossa vida nessa pessoa e deixar ela apertar os botões no seu ritmo, e eu deixei... deixei meu coração em tuas mãos e tu o partiste da pior maneira possível e eu não posso viver com o coração partido, então aqui enquanto escrevo vou arrancando os pedaços do meu peito e deixarei aqui embrulhado com esses pedaços de papel.

Estou a ir para o mar gelado sem vontade de voltar para casa, à propósito já não tenho casa pois eu vivia no aconchego do teu abraço e no afago dos teus beijos, eras meu porto seguro e transformaste-te em areia movediça. Tu me traíste e partiste meu coração, então estou a partir deixando ele contigo e se algum dia conseguires consertar e juntar esses pedaços que sobraram, aí sim, hei-de voltar e ancorar meu barco no meu porto seguro. 

Autora: Bereznick Rafael