19 agosto, 2016

Dalila


SANSÃO: Falais em dor, mas dos teus lábios só o que vejo é o vermelho de um sorriso. A curva dos teus lábios assediando a minha fúria de homem. A minha ancestralidade sendo desafiada pela tua revigorante imagem de mulher. Eu quero tocá-la. Tocar o vento que balança a tua saia, tocar a melodia da música que danças e que não se ouve. Que música tu danças, mulher, que não ouço? Que canção é essa que somente a ti chega e com dor te faz dançar? Perco então a minha mais tenra sensibilidade. Contigo eu sou a criatura carnívora babando em goles ao avistar a presa. Não sinto na pele da alma nenhuma compaixão a não ser a que tenho por mim ao perceber que não a tenho dominada entre os meus fortes e vermelhos braços. Crio cascas, sou animal de gruta e rastejo no escuro. Rastejo sobre a tua pele arrepiada, Dalila. Da... li... la... Que meu deus esteja comigo nessa hora de mais prazerosa aflição. 
DALILA: Eu danço em dor desde os primórdios do tempo. Desde a minha mãe Eva e a deusa antes dela. Houve a deusa. A deusa não existe mais. Agora tu és o deus, o Homem Deus. Quereis saborear a minha dor, amado? Prova então da minha essência de mulher, prova do meu sangue. Sente na tua pele a minha pele se arrepiar em fervor, vibrando em círculos como gira a minha cintura e os meus braços a girar no ar, olha nos meus olhos agora Sansão, encontra-me na minha escuridão com as chamas dos teus olhos, com a tua fúria, com o teu desejo que te eleva. Sente o deus fazer-se em ti. Que o teu Deus esteja de olhos fechados diante da tua imagem, ou o caos se faria na Terra como se fez em Sodoma e Gomorra. Que o teu Deus não veja a tua falha. Quer esconder Dele a tua mais íntima vontade? Nega a tocar-me ou nega ao teu Deus. Tu que és homem. Tu que és deus. A deusa fora capturada pelas areias do tempo e a força do homem. A deusa é cativa, é morta entre a perpétua tumba em que se deita, jazigo da vontade dos homens. A deusa guarda a ira, que é mais forte que a ira de deus. Dies Irae. Dies Irae. Dies Irae. Ela suplica em zanga a sua liberdade, do fundo da terra é possível ouvi-la gritar e seus gritos ecoam no peito calado e cheio das mulheres e na loucura da histeria a deusa se liberta e quer destruir o mundo. Sansão, eu quero destruir o mundo como se para essa destruição eu tivesse nascido. É a deusa falando em mim. Eu estou mais viva e minha carne clama por uma libertação. Ama-me, Sansão, ama-me. Beija-me estes lábios rubros que se aquecem nos teus. Ninguém prende mais a Deusa. Beija-me, homem. 
SANSÃO: Os teus lábios são os das romãs no verão, Dalila, e do sumo que escorre entre eles eu me deleito e me lambuzo e quero ser afogado pela tua seiva. Estes teus lábios que eu beijo me enfeitiçam qual demônio. Demônio que não vejo mas sinto respirando nas minhas costas. E tu arranhas as minhas costas com as unhas vermelhas, tua força de mulher me sangra as costas. Eu sangro por ti sem ver. Só tu reconheces o meu sangue pois já entende de sangue. Meu Deus deu a mim a força de sangrar exércitos, mas não me ensinara a dor do sangue. Jamais tocaria em um homem e teria pena do seu sangue, já que não sei da dor. Mas a ti Dalila eu dedico o meu sangue vermelho e nazireu, o meu sangue anunciado pelos anjos. Pois nas tuas unhas, nas tuas mãos e braços escorre quente e vivo o meu sangue. Quero tocar a deusa em ti, quero entender das tuas dores, dos perigos que avista na tua visão montanhosa, leva-me até as tuas altitudes, Dalila. Dá-me a tua paixão, dá-me o consolo do teu colo, deixa-me mamar nos seios que tocam o delicado tecido que te cobre. Dá-me o calor do teu respirar, deixa-me me embebedar pelos ares da tua cintura, o leito do teu sexo, a morada da deusa no teu corpo frágil de mulher. Em troca eu te dou o mundo. E o outro mundo que não se vê mas se sente. Eu dedico a ti todas as vidas e as graças angelicais que o deus há de prover. Eu amo a ti, Dalila, e por ti eu morreria cem mil vezes como homem; por ti vive o deus em mim. Para manter-te cativa entre os meus braços e sob os meus olhos, eu sou o deus. 

Autor: Geraldo Gomes