05 agosto, 2016

Olhos de pássaro

Conheço uma menina com os olhos tão grandes... Mas não sei por que toda vez que penso nela, me vem a imagem de um pássaro. Também não sei que espécie de pássaro, mas é algo brasileiro, agreste, de alma nordestina, que encontra água nos espinhos do xique-xique, calor na luz da lamparina cheirando a querosene e lava roupa na pedra com as lavandeiras piando perto. De noite ela fica na calçada olhando o céu, suspirando. Às vezes ela nem sai: fica na janela vendo o mundo se abrindo na escuridão seca e quente, imaginando como seria se por ali perto tivesse um festival de bandas, com fitas coloridas e maçã do amor, com toda a gente rindo e prestando atenção em tudo, em tudo, menos nas dores dessa vida. Às vezes os olhos dela parecem os da coruja, não pelo tamanho mas pela profundidade; já falei pra ela que olhar em seus olhos é um susto. Se é um susto de admiração pelas coisas bonitas que ela guarda lá dentro ou se um susto de horror pelas saudades que ela guarda lá dentro, é apenas questão de quem olha. Às vezes seus olhos são de filhotes que estão tentando aprender o pio. Às vezes são os da rapina prestes a agarrar a serpente ainda em voo. Mas eu sempre vejo uma poeira de barro vermelho neles, as flores do maracujá abertas, a chuva do norte, o temporal de janeiro, a água escorrendo entre a argila da taipa, o firmamento cheio de estrelas no dezembro mais frio desse sertão. Eu vejo amor de menina moça, o lamento da viúva que perdeu o marido no fuzilamento; vejo três pedidos de joelho aos santos, moça de fé, e vejo, de noitinha quando o sol cutuca o horizonte pra sair, vejo o baile da criança no terreiro, brincando em ciranda, brincando, suja, pés descalços, braços soltos no ar, no terreiro com a luz do único poste da rua, rouca de risos e gritos, doida na sua infância, seca, feliz, mas com a mãe sempre a chamando pra dormir.
No sonho ela sonha um mar de coisa bonita, uma imensidão das fantasias que só quem tem olhos profundos como os dela já vislumbraram. Nas noites de pesadelo ela vê um homem alto, com a sombra maior que ela por ser pesadelo, com um cheiro bruto de enxofre, querendo agarrá-la, e a sua sombra com seus dedos esticados lhe prende os pés, as mãos, a garganta e, por fim, o peito. Por isso, sempre que tem pesadelo ela acorda suada com a mão no coração, puxando o fôlego. Bebe a água serena que a mãe colocou na mesinha do lado. Prefere os dias azuis, as brisas que não mexam muito em seu cabelo, as histórias de amor que rimam e são engraçadas. Gosta do doce com um toque de amargo, mas eu gostaria de presenteá-la com um favo de mel.

Ela tem olhos de quem quando varre a casa, joga a poeira pra cima só pra ver os pozinhos cintilando na fresta do sol entre as telhas; ali ela imagina toda uma vida, toda uma história com gente que nunca viu mas sabe que é amiga. Ninguém sabe as coisas que seus olhos veem, mas de relance dá pra olhar para dentro deles como se olha para dentro de um baú no canto de um quarto abandonado. E, olhando, ninguém pode descrever com palavras seguras o que encontraram por lá.
Autor: Geraldo Gomes