02 setembro, 2016

Anunciação de Inverno


Ontem havia feito um dia claro demais, Ana. Cheio de solestava sufocando de claridade. Só quem parecia gostar eram as árvores, por causa do vento. O céu estava tão azul que era impossível ficar mais azul. Nenhuma nuvem, nenhuma ameaça ainda que mínima, um dedinho só, de chuva. O ar era fresco, mas não indicava água. Talvez você gostasse de ter vivido um dia tão limpo, Ana. 
Hoje a chuva me acordou. Saí de casa molhado, tomei o café da manhã molhado, cheguei no trabalho molhado. E ainda está chovendo. E não tenho esperança de que pare de chover ainda hoje. As árvores tão alegres de ontem agora parecem aquelas roupas esquecidas no varal, sendo varridas pelo vento, pela água, e só não são levadas porque o tronco é mais pesado que a água da chuva. Acho eu. Não é sequer um temporal, só uma chuva mesmo, que parece ser constante já que não aumenta ou diminui, não acaba ou inicia propriamente dito. É uma chuva estagnada. Acredito que seja assim em todos os inícios de inverno. 
Aqui dentro dessa sala eu vejo o céu estático de cinza, nebuloso e gordo, arrastando a barriga branca nas serras mais adiante. Aqui perto vejo as árvores através da janela num verde escuro pela água, numa tristeza como criança que não pode sair de casa para brincar por causa da chuva. Mas a árvore está no meio dela sem nada para se proteger. Ana, você acha que árvores sentem frio na alma como nós ou o frio delas para na casca? Como também acontece com algumas pessoas. Elas parecem friorentas agora. Espero que descubram uma forma de aproveitar o inverno. 
Autor: Geraldo Gomes