27 junho, 2017

Magia Negra ou O Mágico Negro



Ele saia todas as sextas, ao meio dia, com a pasta de documentos e o silêncio da culpa. Regressava todos os domingos, a noite. Ele regressava com o uivar da lua e a escuridão da inocência. Com ele, trazia o cheiro da Rua e o sabor de outros desejos, carregava uma imensa bagagem de outras pragas e promessas; a minha missão era desfazê-la peça por peça, prestando especial atenção em cada botão, cada bolso, cada vinco... As vidas, outras, que ele me trazia eram iguais ou piores do que a minha. Estas vidas, eram 7 e, matavam aos poucos a única que eu tinha.
‘’Um dia... Um dia vou embora.’’ Ele dizia para a Rua e eu dizia para mim mesma. Eram promessas vazias que repetíamos na esperança de nos fazer acreditar. Não sei se era por medo de encontrar algo pior ou por conforto de ter o suficiente; alguém para dividir a cama, comida quente na mesa e silêncios para alimentar a alma. A Rua acreditava nele, e esperava. Eu não podia acreditar em mim mesma, sabia que aquele dia nunca chegaria.
Como é que eu iria voltar para a casa da minha mãe? de que cor pintaria o meu rosto e que espaço iria encontrar para mim? A minha mãe, única, diria: Ele é como o teu pai, e o pai dele, e o pai dele... e o bisavó. Ele, como todos os homens, é o espectáculo da ilusão... e nós, como todas as mulheres, somos meras espectadoras.
A minha avó, insistentemente, recomendava que eu fosse para a província procurar tratamento... tomar banho de ervas, limpar-me das impurezas, livrar-me das pragas. Ela acreditava que era feitiçaria, magia negra, ‘‘Tô marido tá fitçado’’ Dizia.
Eu, perpetuava o meu silêncio enquanto esperava pelo dia. O dia em que fosse largar tudo e ir embora... mas o dia não chegava. O dia era cada vez mais distante e inalcançável. Os vizinhos, também, especulavam que era magia negra. Obra da Rua, a feiticeira... mas nunca se cogitou a possibilidade de ser ele o feiticeiro, o mágico... o negro!