04 março, 2018

A menina, a mulher e a criança.



Ela ia todos os dias para o mesmo café. Sentava-se sozinha, na mesa do fundo. Gostava de estar longe dos olhares, dos comentários, das atenções. Todos os dias, ela pedia o mesmo chocolate quente. Sorria para o garçon e depois para si mesma. Estava num exercício de se amar mais. Por isso, acordava todas as manhãs e vestia-se da maneira que gostava de se ver... olhava para o espelho e elogiava a pessoa que via à sua frente: uma menina assustada, uma mulher inibida, uma criança perdida. Era bonita, sim, apesar de tudo isso. Era bonita por fora, ela sabia... mas precisava de recuperar a sua força interior, orientar a menina, empoderar a mulher, acolher a criança. Precisava de recolher todos os pedaços que perdeu ao longo do caminho e colocá-los no lugar, precisava de reconstruir-se. Todos os dias, sentada naquele café, ela fazia uma oração em silêncio para que nascesse em si um poder de afirmação.
O chocolate quente chegada. Ela sorria outra vez, primeiro para si e depois para o garçon. Bebia. Bebia e pedia que aos poucos a menina, a mulher e a criança se alimentassem e reconciliassem.