15 julho, 2018

Em cada rosa que me entregava



Ao lado dele a vida era mais leve, as preocupações inexistentes e os medos insignificantes. Parecia ter a fórmula para retirar o peso das situações e torná-las mais amenas. Ele resolveu os meus problemas, abraçou-me quando fez frio e, em dias quentes, refrescou-me com os seus beijos suaves. 

Era feito de um cuidado tremendo, um senso de protecção surreal e uma tranquilidade que até assustava. Disposto a dar tudo de si, preencheu os meus vazios, limpou as minhas lágrimas e apoderou-se das minhas batalhas, usurpou-se dos meus demónios e idolatrou o meu corpo como se lhe tivesse dado a vida. 

Ao observar os seus actos, decidi encará-los como uma demonstração de amor desmedido, puro, incondicional. Pensei que ao cuidar de mim estivesse a mostrar o quanto me amava; mal sabia eu, que ele estava simplesmente a camuflar-se. Esconder-se do passado, dos seus pesadelos, inseguranças e fantasmas. 

Escondia-se nos meus vazios, nos buracos da minha alma, nas minhas lamentações; fazia de mim seu refúgio enquanto tentava reconstruir-se com os pedaços que o mundo fez de mim. Traduzia os meus pensamentos para que eu não lesse os dele, respondia as minhas questões para que não sobrassem linhas para as suas, remendava o meu coração para que eu não visse o dele ensanguentado. 

Pedia-me para deitar a cabeça no seu colo e contava-me histórias inventadas de um tempo que nunca existiu, eu fechava os meus olhos e ouvia com atenção enquanto ele reprimia as lágrimas que lhe visitavam os olhos e devorava cigarros para se livrar da frieza que lhe comia o peito. Matava-se aos poucos, enquanto tentava mostrar-me a beleza da vida. 

Admito, com remorso, que ele foi a minha cura... mas sinto muito que para isso tive de ser o seu veneno. Sinto muito por não ter estado atenta para ouvir seu pedido de socorro, por não perceber que não se recebe nada sem olhar para as mãos de quem nos oferece. 
Sinto muito por não ter percebido que as suas mãos sangravam em cada rosa que me entregava.