23 julho, 2018

Os homens que eu amei


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O primeiro morava perto da minha casa, espreitava-me pela janela e desejava-me nos seus inocentes suspiros. O primeiro homem que amei tinha um nome peculiar, olhos negros e sorriso maroto. Ele esperava-me no portão, com bilhetes maravilhosamente mal escritos, em guardanapos com corações desenhados e quadrados para que eu escolhesse entre o sim e o não. Queres namorar comigo?
O primeiro homem que amei não me pedia beijos, não se alimentava com toques e nem queria mais do que aquilo que eu lhe podia oferecer naquele momento. Eu não disse sim nem disse não, apenas sorri-lhe e guardei a carta no canto esquerdo do peito, éramos ainda muito novos para tomar decisões adultas. Foram sorrisos, olhares e silêncios até o dia em que ele mudou de casa.
E veio o segundo.
O segundo homem que eu amei era mais velho do que eu. Sabia mais, falava mais, queria mais e fazia-me sentir sensações que eu desconhecia no meu próprio corpo. Ele tocava-me, eu tirava a sua mão, ele sussurrava-me palavras doces ao ouvido e voltava a tocar, eu deixava, eu sentia... Diferente de mim, ele já tinha vivido outras histórias, todas elas com desfecho semelhante. Ele queria de mim mais do que aquilo que eu estava preparada para dar, ele exigia que eu me entregasse, que me despisse, que eu crescesse como as outras que ele já teve. Eu fui embora, não cedi... Até que ele mudou de cidade e todas as memórias desapareceram no tempo.
O mais selvagem, voraz, nu e cru dos homens foi o terceiro que eu amei. Este que vestia na pele a beleza e sensualidade, trazia no cérebro a persuasão e intelectualidade. Ele utilizava palavras cuidadosamente ensaiadas para seduzir e destruir mulheres. Eu fui uma das escolhidas. Não sei se me considero vítima, até porque eu fui porque quis, mas até o querer é uma construção daquilo que ouvimos, que observamos ou nos fazem imaginar. Eu fui ingénua por ter ido e ele foi muito cruel por me ter seduzido ao ponto de eu querer mais a ele do que quis a mim mesma. Ele, o terceiro homem que eu amei, não me queria durante o dia... ele queria-me a noite, quando todas as vozes se calam e o som dos meus gemidos é a única coisa audível. Ele queria sentir o poder de me ouvir dizer que ele era o único homem no homem no mundo, o único homem no meu mundo... mesmo sabendo que eu só mais uma no dele.
Este também foi embora.
O quarto homem que amei veio coberto de passados. Olhava para mim e desejava que fosse ela. Tocava-me mas não me via, ele fechava os olhos e imaginava-se com ela, num tempo que não hoje, numa cama que não era minha. A minha pele era um conjunto dos pedaços das memórias que ele tinha dela, por isso tocava-me devagar e sentia cada dor das palavras que não foram ditas. Tocava-me devagar e sentia o remorso da despedida. Eu abraçava-o, acolhia-o, cobria-o com o manto do meu desejo e por pouco ele me beijava... até que percebeu que eu não era ela. O quarto homem que eu amei veio coberto de passados, um passado mais bonito, mais cheiroso, mais intenso do que o presente que eu lhe oferecia. O quarto homem que eu amei amava uma mulher que nunca o amou.
Depois dele chegou o conforto, o aconchego, o contentamento.... Depois dele chegou o quinto homem, o último, o único que eu não amava, mas respeitava e admirava. Foi com ele que me casei.