30 julho, 2018

Uma carta à mim mesma (ao passado)



Ontem tive um sonho. As cores vivas entrelaçaram-se com a realidade, os sons nítidos fundiram-se com o presente e fizeram-me cruzar a linha ténue que separa o sonho da realidade. Estavas no meu quarto, com as olheiras que te são características e o teu diário secreto. Nos teus olhos negros, vi um misto de nostalgia e doçura enquanto folheavas as páginas do teu diário. Leste em voz alta cada página daquela caixa de memórias. Enunciaste amores não correspondidos, doenças não diagnosticadas, inseguranças algozes e medos inexplicáveis aos olhos humanos. Relembraste os momentos em que o mundo pareceu desabar e, instantaneamente, lágrimas escorreram dos teus olhos; falhava-te a fala, não conseguias ler mais nada. Perplexa,  tentei abraçar-te mas tu evaporaste. Logo a seguir, eu acordei. 
Por isso, decidi sentar-me na banheira coberta de espuma e escrever-te esta carta enquanto tomo um chá de frutos vermelhos, o teu favorito.

À ti, 
Querida eu do passado,

Tenho procurado a cura todos os dias, e encontrado plenitude nos pequenos actos. Já não me dói a alma, porque aprendi que nem tudo merece a minha energia. Aprendi a calar-me perante situações que não consigo mudar e agir sob as que tenho autoridade. 
Hoje em dia, já não me desgasto. Descanso dos amores que viveste intensamente, dos beijos que deste sem pensar duas vezes, dos abraços que não adiaste, dos telefonemas que fizeste só para ouvir a voz daquela pessoa e das mensagens que respondeste sem hesitar.  Eu entendo que tu só querias viver cada instante e ser verdadeira à ti mesma... mas devias ter ouvido mais as tuas amigas, porque neste mundo feito de jogos quem mostra as suas cartas é bom perdedor. De qualquer forma, não te culpo por isso. Aprendi a perdoar-te e quero que o faças também. 

Não te preocupes comigo! Estou a recuperar-me das promessas que não foram cumpridas, dos beijos que recebeste sem verdade, dos telefonemas ignorados e mensagens não respondidas. Estou a curar-me das energias que envenenaram a tua alma, dos  olhares que te inundaram de expectativas, dos corações que não queriam ser teus, das almas cegas que atropelaram as tuas certezas, dos corpos famintos que te possuíram sem gentileza. 
Aprendi a separar o romantismo da realidade. Percebi que o coração só está aqui para bombear sangue, e não para abrigar dores causadas por desinteligência emocional. Já não dou passos sem olhar para o chão onde piso, já não me atiro sem observar se o que me espera é céu ou abismo, já não me entrego sem me certificar que existem mãos abertas para me receber. Hoje sou mais cautelosa, mais selectiva, mais atenta aos lugares que frequento e as pessoas que entram na minha vida. Tive de aprender da forma difícil, tive de sofrer para saber o valor da felicidade, tive de provar as lágrimas do diabo para apreciar o beijo de Deus. 

Depois de tudo, posso garantir-te que estou bem. Querida eu do passado, estou bem e quero que tu também estejas. Perdoa-te por não teres feito ontem o que só aprendeste hoje, por não teres usado palavras que ainda não faziam parte do teu vocabulário, por teres escrito cartas à pessoas que só sabiam ler em braille, por teres falado em línguas estrangeiras num país xenófobo.

Perdoa-te por teres andado em lugares escuros, teres entrado em becos sem saída e ignorado os sinais ao longo do caminho. Muitas vezes precisamos de nos perder para percebermos a importância de voltar para casa; e quando digo casa, falo do lugar onde habitamos, o que também pode ser uma pessoa.
Perdeste-te, mas reconheceste o caminho de volta... de volta à mim, que sou a tua casa. 
Bem-vinda! Agora é seguro ficares, estou limpa. 
Descalça os chinelos na porta e vem, que eu te lavo os pés!