01 agosto, 2018

O sossego vai chegar


Imagem: We Heart it


Vejo-te inquieta, quase sempre ansiosa por algo desconhecido, a pensar no que te escapou das mãos. Acreditas que algumas coisas são boas demais para serem verdade e por isso recusas a felicidade. Preferes aceitar migalhas porque são reais, contentas-te com vestígios porque eles indicam a presença de alguma coisa. Fascinas-te com a fumaça porque ela indica que algum dia, em algum tempo, existiu fogo e não foste tu quem o apagou. 
''Tudo que eu toco,'' dizes ''estraga.'' Por isso tens medo de dar o primeiro passo, de sentir as texturas, de abrir as mãos e receber o que te oferecem. Não aceitas nada que seja completo porque tens medo de sabotar o perfeito. Aceitas o que já foi usado por alguém, o que chega gasto e cansado; porque à isso não deves cuidados, não és responsável pelo que já está quebrado. Afinal, encontras segurança no conforto de ter sempre a quem culpar. Não queres ser apedrejada em praça pública por estragar o que estava bom.

Vejo-te desassossegada, sempre a olhar para os outros, a pensar na vida que poderias ter vivido. Acreditas que todos estão a dar passos mais largos, tomar decisões mais inteligentes e a andar em relvas mais verdes do que a tua. Preferes ficar em casa, não porque é confortável ou porque não tens para onde ir, mas sim por ser mais fácil. Não queres lidar com as pessoas e os seus gestos apressados, não queres ter de responder perguntas sobre o teu olhar alarmado e os teus batimentos cardíacos sempre apressados. Eles não entendem, não percebem a adrenalina que se apodera dos teus vasos sanguíneos, a escuridão que aparece diante dos teus olhos, o medo sem  explicação, o pânico instantâneo e o medo de que algo violento irá acontecer a qualquer momento e destruir tudo que ainda resta.

''Tenho medo de alguma coisa'' dizes ''que não sei o que é.'' Por isso abrigas-te na comodidade do teu quarto e sonhas com um tempo perfeito onde as tuas mãos são de fada e criam em vez de destruir. Sonhas com uma voz que te consola, um abraço que te recolhe e te sussurra no ouvido que tudo vai ficar bem, as dores irão desaparecer e as perdas ganharão um novo sentido. A paz irá bater a porta e a ansiedade será expulsa de uma vez por todas, o silêncio expressará as suas verdades e o mundo terá de se calar para ouvir.
Os cacos serão removidos do caminho e tu poderás desfilar numa relva de qualquer cor, sem olhar para a dos outros... porque a tua será colorida, próspera, suave e autêntica. Não será mais nem menos do que a dos outros, será simplesmente tua.


Limpa a tua mente da auto-sabotagem e preenche-te com novas certezas.
O sossego só vai chegar quando o teu coração estiver pronto para o abrigar. 
Por agora, respira fundo e limpa-te.